O que vi em São José dos Campos só reforça o retrato lamentável da democracia em que vivemos: 9 mil pessoas sendo despejadas violentamente de suas moradias para atender aos interesses de um bilionário que tem nome: Naji Nahas. Os moradores anônimos de Pinheirinhos são tratados como números, são arrancados de suas casas, sem direito a levar seus pertences, saindo apenas com sua cédula de identidade que os define como cidadãos brasileiros. Que democracia é esta que envia 2 mil policiais da tropa de choque para violentar trabalhadores e trabalhadoras que reivindicam o direito constitucional à moradia? Que democracia é esta que expulsa mais de mil famílias de suas casas para entregar o terreno a um corrupto que deve milhões ao município?
O retrato da região era de barbárie: a tropa de choque cercou Pinheirinho, impedindo a imprensa de registrar o massacre e sitiou todo o seu entorno. Bombas de gás lacrimogêneo e de efeito moral foram usadas durante o dia inteiro, inclusive dentro da área reservada para “acolher as famílias”. Os barracões montados para receber os moradores despejados estavam imersos em lama e caos, crianças e idosos feridos, pessoas aos prantos, revolta popular.
O Campo dos Alemães, bairro ao lado do Pinheirinho, estava em clima de terror: tropa de choque avançando contra a população e policiais atirando balas de borracha e bombas contra quem estivesse na frente. As casas dos moradores viraram abrigo dos que estavam na rua, onde também fui acolhida. A tragédia anunciada se efetivou. E uma das culpadas é a juíza estadual que desacatou a ordem judicial federal, que suspendia a reintegração de posse pelos próximos quinze dias. A juíza também tem nome: Márcia Loureiro.
Ao longo do dia, ouvi diversos relatos do terrorismo implantado pela Polícia Militar. Logo ao amanhecer, a PM invadiu Pinheirinho, arrombando as casas e expulsando as famílias, que foram impedidas de levar seus pertences. A maioria saiu com a roupa do corpo, documentos e um pedaço de papel, dizendo que poderiam retirar seus móveis posteriormente. No entanto, no mesmo dia já começaram a destruir casas dos moradores. A tropa de choque chegou atirando balas de borracha, gás de pimenta e bombas de gás lacrimogêneo na população, que não tinha condições de se defender. Muitas pessoas estão feridas e já foram confirmadas mortes, incluindo a de uma criança de quatro anos. Ainda não se sabe ao certo quantas pessoas morreram, já que os próprios hospitais estão abafando estas informações. A mídia corporativa também não está divulgando a gravidade da situação, só reforçando a imagem de que os moradores são “baderneiros”, “invasores” ou “desordeiros”.
São José dos Campos possui um déficit habitacional de 30 mil casas, sendo que na última década a Prefeitura construiu uma média ínfima de 300 casas por ano. Os moradores de Pinheirinho são lutadores históricos pelo direito à moradia. Vivem há oito anos neste terreno, onde construíram suas casas de alvenaria a base de muito trabalho. Após o despejo, a prefeitura estava cadastrando famílias para serem encaminhadas a abrigos provisórios ou pagando passagens de ônibus para outras cidades, incluindo o nordeste. O que está ocorrendo na cidade é uma política de higienização e criminalização da pobreza. Qual o sentido de tirar pessoas de suas casas já construídas para cadastrar em programas de habitação? Uma das moradoras, aos prantos, disse que está há dezoito anos numa fila de espera para conseguir moradia popular no município e não foi atendida até hoje. Onde irão morar estas 9 mil pessoas?
Vale ressaltar que Pinheirinho já funcionava como um bairro, a maioria das casas construídas de alvenaria, existiam muitos comércios locais que serviam de fonte de renda e abastecimento da comunidade. O que os moradores reivindicavam era a desapropriação do terreno, massa falida da empresa Selecta, de Naji Nahas, corrupto que deve R$ 15 milhões à prefeitura local. A juíza Márcia Loureiro fez sua opção de classe.
Ao final da noite, centenas de pessoas estavam abrigadas na Igreja Nossa Senhora do Socorro. Ao redor, o clima de terror continuava: a PM continuava atirando bombas, inclusive dentro do espaço da igreja. Entre o sonho e a esperança, a barbárie. Quem irá pagar por esta tragédia a serviço da especulação imobiliária? Voltemos aos que tem nome: Naji Nahas, o bilionário; Márcia Loureiro, a juíza; Eduardo Cury, o prefeito de São José dos Campos; Antônio Ferreira Pinto, o secretário de segurança pública do estado de São Paulo; Manoel Messias Mello, o comandante da operação militar; e Geraldo Alckmin, o governador de São Paulo. Quem mais é responsável? Não esqueceremos e lutaremos para que justiça seja feita. Mesmo sabendo que vivemos num país onde reina a impunidade. Terra é pra morar e não pra especular!
Cristina Beskow, jornalista e documentarista na Camará Comunicação e Educação Popular (www.camaracom.com.br) e militante do Coletivo de Comunicadores Populares (www.comunicadores.org)

5 Comentários
Cristina, parabéns pelo *excelente* “A verdade não mora ao lado”. Fiz e publiquei uma breve resenha em “Outras Palavras” (http://rede.outraspalavras.net/pontodecultura/2012/01/25/pinheirinho-o-possivel-papel-do-jornalismo-independente/), que edito. Estou em Porto Alegre, participando do Fórum Social Temático. Volto domingo. Gostaria muito de entrar em contato com o coletivo de vocês.
Abração
antonio
tudo que esses Deputados safados estão fazendo e a convardia em pinheirinhos
fecha aspas
envie esse comentario para o SBT.
Seis vão mudar esse país Seis tão satisfeitos Seis não achão que pode ser bem melhor eh eh eh eh jovens brasileiros e de Pinheirinhos SP vamos pedir o Impitimam da Presidente Dilma Rousseff vai embora Dilma ninguém te aguenta mais.
Um dia a gente vai ser humano feito Amilton dos Santos
Um dia a gente vai conseguir ser humano…
Porque não é coisa de ser humano,
jogar gente viva para fora de casa
e passar por cima dos móveis,
dos documentos,
da bicicleta,
do casasquinho do bebê,
da geladeira,
ou mesmo da sala do barraco sem nada.
O barraco de uma pessoa que só tinha aquelas coisinhas.
Ou aquele nada de nadinha…
Um dia a gente vai ser humano,
feito aquele motorista de trator,
que se recusou
a passar por cima da vida de uma família
e destruí-la.
SOLINEIDE MARIA DE OLIVEIRA
Pq vcs so colocam esse pessoal como coitados???
Sou moradora do bairro Res. União ao lado da invasão do Pinheirinho… vi tudo isso de perto, e ñ concordo c mta coisa dita no texto acima…
Ñ sou defensora do Nahas, mas concordo SIM com a desocupação do terreno…
Pq ñ falam das inumeras ligações clandestinas de agua e luz, asfalto todo quebrado por conta dos “gatos” um enorme desperdicio de agua, fonte de agua pelas ruas com canos quebrados, prostituição na avenida do Imperador a luz do dia, pessoas intimando os moradores pedindo alimentos o tempo todos nas casas… Isso vcs ñ falam???
E das escolas, da FUNDHAS q colocaram fogo? Carros, padarias incendiados por eles…
Como pode legalizar um terreno invadido? E as mtas pessoas na fila da casa propria, ñ seria injusto?
E a grande maioria das casas ja era de alvenaria, ñ barracos… alias, casas com perfeitos acabamentos, piscina, e eletrodomesticos de primeira…
A TV faz mto sensacionalismo, mostra o q quer mostrar, mostra o q vende…
E ñ teve morte nenhuma… uma familia q estava como “desaparecida” ja apareceu, disseram q estavam numa casa de parente…
Todos os moveis foram retirados antes da demolição, o q foi demolido no dia da invasão, foram 2 casa que era de trafico e um barracão onde eram feitas reuniões e missas…
Falo c conhecimento de causa, procurem ver os 2 lados antes de tomar partido…
http://www.vnews.com.br/noticia.php?id=112757