Relato de uma mulher estuprada em Barão Geraldo

Sou uma vítima de estupro. Sou filha de uma mulher que quase foi estuprada. Irmã de um homossexual que poderia ser agredido a qualquer momento. O que existe de comum? A incapacidade da sociedade aceitar que o respeito não é algo que se constrói, mas um direito fundamental. Deque nosso corpo e nossa sexualidade dizem respeito somente a nós.
Fui a terceira estuprada em menos de uma semana em Barão Geraldo. No dia, a blusa de lã, sapatos fechados e calça jeans contradisseram ao velho discurso da “vadia” que pede por seu assédio. Para ser estuprada, basta ser mulher, independente do juízo de valor.
Assalto seguido de estupro. Fui obrigada a fazer sexo oral, o que me valeu alguns comentários dizendo que podia ser pior. Não há nada pior do que o domínio atroz de seu corpo.
Assim que saí de lá e cheguei ao meu destino inicial, havia um carro da polícia querendo impedir a festa de uma república acontecer. Carro este que chegou a passar na rua enquanto meu orgulho de ser mulher era destruído por um desconhecido. A ronda policial em Barão tem apenas um objetivo: estabelecer o toque de recolher aos estudantes para que juízes, delegados, professores universitários e empresários sintam o distrito como uma grande fazenda, sem barulho, sem nada. A segurança das pessoas está e sempre esteve em segundo plano, já não é uma novidade.
A delegacia que funciona em horário comercial (porque crimes só acontecem neste período), não pôde fazer meu B.O. Já a escrivã do quarto DP quase me convenceu de que era eu a culpada, teve de ligar no celular do delegado para confirmar se registrava estupro ou não. E a delegacia da mulher torceu para que eu arquivasse o caso.
No CAISM, mais de quinze injeções e remédios contra a AIDS que me deram efeitos colaterais por 28 dias…
A militante que eu era estava enterrada na culpa de existir, na vontade de abandonar tudo, no medo das ameaças, no “podia ser pior”.
Em casa, depois de muito tentar entender meu total desânimo, fui lembrando de todos os fatos históricos que incluíram mulheres, de todas as revoluções que foram conquistadas pela participação ativa feminina. Pude alimentar ainda mais o ódio por ouvir absurdos como o do bispo Bergonzini de que o estupro só ocorre pela permissão da mulher.
Conversei com pessoas estratégicas, quem poderia me ajudar de fato e logo fiquei sabendo das mobilizações que rolavam em Barão. Soube também das discussões sobre o “coloca ou não o telefone da delegacia no panfleto”, “se queremos ou não punição dos agressores”. Recebi a cartada ANEL (que aliás nunca se deu ao trabalho de saber as informações verdadeiras, inventou o dia, a situação e a descreveu como bem quis, deixando claro para mim que o que importava era “fingir” que algo era feito.)
Apesar de todo o descaso da polícia, ainda são eles que possuem as condições materiais necessárias para garantir as investigações e, no mínimo impedir que determinado estuprador continue agindo.
A punição tem que ser dada, não se trata apenas de um oprimido que rouba como forma de existir num sistema capitalista, mas de um agressor ao corpo da mulher, que as coloca em risco de vida, que as oprime pelo autoritarismo independente da classe. Defender que não tenham punição é estar ao lado dos estupradores.
Só me senti verdadeiramente segura quando vi o cartaz “Mexeu com uma Mexeu com todas”, porque acredito que a única forma das mulheres se defenderem da opressão e lutar por sua liberdade é se auto-organizando. E foi pela conscientização e ação política que pude me fortalecer, me reerguer, cerrar os pulsos e ter a certeza de que NINGUÉM TIRA MEUORGULHO DE SER MULHER.
Façamos outras passeatas, nossa luta apenas começou!
Se usar a roupa que eu escolhi, andar no horário em que decidi, ou ser mulher me faz vadia. Vadia sou e exijo respeito!
Agradeço a todas as vadias que saíram nas ruas no dia 11.
Vítima número 3 do mês de julho.

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2 Comentários

  1. Jonathan
    Publicado 26 de agosto de 2011 em 17:27 | Permalink

    Isso é um absurdo e revoltante, deixando de lado o descaso do atendimento policial, o fato de um homem humilhar uma mulher na forma mais cruel, isso mostra a covardia que o ser humano pode ter em situações que todos duvidamos, e assemelha-se a doença.

  2. Victor
    Publicado 22 de dezembro de 2011 em 7:33 | Permalink

    Vc é uma falsa moralista, apesar de que aconteceu essa tragédia contigo, os criminosos geralmente são punidos, como devem ser, pela lei. Para ser estuprada não basta ser mulher, esse seu irmão poderia ser estuprado, garotinhos nas igrejas são por padres pedofilos, ou outros criminosos do tipo, vc é só mais um vitimista e ninguém garante que todas essas histórias de estupro da internet são verdadeiras, vcs feminazis só querem é entornar o caldo para o lado dos homens e deixar todo mundo cozinhando até a morte, na injustiça social, daqui uns tempos será comum o homem ser apedrejado em publico na sociedade feminazi q vivemos, quando fui pequeno tentaram me apedrejar, depois de me empurrarem em um buraco de uns 3 metros, tudo pq brigando com um irmão de uma vagabunda da minha idade, aí a irmãzinha santa bem mais velha que eu na época, uma verdadeira aborrecente, resolveu me empurrar em um burraco(esses de colocar manilhas), aí ainda jogaram pedra, quando estava lá e ficavam rindo, minha sorte foi que me arrebentei na queda, mas as pedras não acertaram, senão poderia estar morto. E vcs generalizam(afinal, se vcs dizem que para ser estuprada basta ser mulher, para ser estuprador basta ser homem, é isso???), condenam, julgam todos a partir dos piores e se acham as donas da razão, mas vcs nunca lembram que muitas mandam milhares de cartas para bandidos altamente perigosos, tipo o maniaco do parque quando foi preso, não lembram que bandido sempre tem mulher, que fazem de tudo por eles, qualquer absurdo, vão visitar eles na cadeia para visita intima, esconde coisas ilicitas em partes genitais, etc. PQ VCS NÃO LEMBRAM DISSO???…
    EU SEI QUE VC É QUE NEM A MAIORIA DAS REPORTERES DA IMPRENSA, NÃO TOLERAM LIBERDADE DE EXPRESSÃO VERDADEIRA, SE NÃO LHES É CONVENIENTE, COISA QUE VCS NÃO SE IMPORTAM EM SEREM A NINGUÉM E QUE VC NEM PERMITIRA QUE MEU POST CONTINUE NESSE SEU BLOGUIZINHO MOFADO E CALUNIADOR.

3 Trackbacks

  1. Por Misscaffeine - mulheres, vamos nos unir! em 22 de agosto de 2011 às 12:57

    [...] texto eu li aqui, no comunicadores populares mas também tem um muito bom no blog de Maíra Kubík [...]

  2. [...] dos diversos casos de estupro que acontecem nas cidades, seja no metrô, baladas ou universidades. A grande mídia convencionou a tratar todos estes casos de violência machista como fatos [...]

  3. [...] Sindicato dos Metroviários de São Paulo contra os abusos sexuais nos transportes públicos e os casos de estupros que escandalizaram em Barão Geraldo (Campinas). O drama da violência contra mulher ocorre em todo [...]

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